segunda-feira, abril 19, 2010

Não é importante.

"Não precisa ter medo.... se não der certo, você começa de novo."

Mas o fato é que ela não conseguia não ter medo. Sim, ela tentava com todas as forças. Fechava os olhos e repetia em voz baixa pra si mesma que ia dar tudo certo....
Mas a verdade é que ela tinha mais que medo. Tinha aflição, apavoro. Suava frio, tremia de bater os dentes. Só de pensar na possibilidade de não dar certo. Ou seja, de dar errado. De ser um desastre.
"Vão rir de mim" ela pensava insistentemente antes de dormir. Ela não. A sua cabeça que cismava em não parar de pensar, raciocinar, projetar, divagar. Maldição de mente inqueita e teimosa.
E ela virou de um lado pro outro, minuto após a minuto até de manhãzinha. O lençol saiu da cama, deixando sua pele encostada no colchão, e ela detestava isso. Sentou ereta, apoiou as mãos na cabeça e chegou a uma conclusão.

"Não é importante".

E se não é importante..............

terça-feira, março 30, 2010

turnê.


a doblo fica pequena de tanta tralha. a estrada é ruim, mas o caminho é bonito. há a alegria do reencontro. há a preguiça de outro encontro. nem tudo é perfeito.
a tesoura quebra. o baú desmonta. o boneco cyber quebra a cabeça. a porta do carro quebra. tá tudo se quebrando? o pneu fura. não adianta encher de novo. não era essa rua, era a outra. vai reto. reto pra onde? cadê minha água? faz meu cabelo? tô com dor de barriga, fudeu!!! tem certeza moça que não tem apresentação marcada nessa escola? entrevista as 6 da manhã. que comida é essa? amiga. esse suco tem gosto de jarra. as crianças invadiram o cenário. o ventilador tá fazendo muito barulho, não consigo dormir. escorrega no tapete, machuquei minha coxa. poxa. mensagens, ligações. água de 5 litros é pouco. pode ser torto. não suporto mais. passa um saco de peso pra eu fazer de travesseiro? sorrisos. o bilboquê. o broto. tartaruga. o porta coisas. lixo de mesa. tesoura. boi. papelão. gordinho não chora que eu te dou outra garrafa. a toalha arranha. não quero sair pra jantar. doritos ou cheetos. medo. lixo na lixeira. nota fiscal. cartão clonado. marca de batom e pão mofado no café da manhã. pai? dor. amor. saudade. olhos brilhantes. pedaço de gente no lixo orgânico. semente de jibóia. certezas. desvio. desvio. desvio. velha benzedeira.
trechos de três semanas. tanta coisa. umas previsíveis, outras inacreditáveis.
sempre assim. ainda não acabou. é, não acabou.
uma semana de folga pra colocar as costas no lugar, esvaziar a alma, matar a saudade e fazer tarefas burocráticas.
e depois?
ah depois é depois.
eu quero saber é de agora.



sexta-feira, março 05, 2010

a frase do momento.





"Deixa estar que o que for pra ser vigora"

sexta-feira, janeiro 29, 2010

dentro dela.


Ela chorou por oitenta e dois minutos ininterruptos.


Queria ficar vazia daquela dor tão nova e tão cinza.


Desejou não ser ela.


Queria ser qualquer outra coisa ou pessoa porque, ser ela naquele momento, lhe destroçava o estômago.


Pensou no sorriso que era tão seu, aquele sorriso que era tão instintivo e tão verdadeiro. Sentiu saudades. Onde ele havia se perdido? Talvez só estivesse escondido, com medo de aparecer.


A leveza não estava lá, tampouco a doçura que lhe preenchia há dias atrás. Ela ansiava o silêncio, mas não conseguia calar sua alma.


Ela fechou os olhos e entendeu que palavras podem machucar mais que uma surra.


Sim, ela havia sido espancada ferozmente. E logo apareceriam os hematomas. Porém, ela torcia que eles não virassem cicatrizes.


Deitou a cabeça sobre os joelhos e tentou sentir um pouco de raiva. Mas não conseguia. Dentro dela, no vazio, misturavam-se a dor e o amor. Só.





quarta-feira, novembro 04, 2009

de novo sobre liberdade. sobre liberdade sempre.


Ela é tão livre que um dia será presa.

- Presa por quê?

- Por excesso de liberdade.

- Mas essa liberdade é inocente?

- É. Até mesmo ingênua.

- Então por que a prisão?

- Porque a liberdade ofende.


Clarice Lispector.

segunda-feira, outubro 05, 2009

why?

Por que a gente não pode ganhar dinheiro fazendo o que ama?

Por que tem gente que faz o que não ama e fica rico?

Por que é tão difícil?

Por que tem gente que não dá valor pro que a gente ama fazer?

Por que tem gente que vê só glamour onde tem também muito sofrimento?

Por que acham que você só "é"se tiver "lá"

quinta-feira, setembro 17, 2009

Alice


Alice estava sentada na calçada, em frente a sua casa, como era tão habituada a fazer.
Chovia muito, mas Alice parecia não perceber. Talvez porque confundia suas lágrimas com aquela água do céu que não parava de cair.
Indagou-se se o céu chorava com ela. Mas não conseguia ter certezas nem respostas.

Alice nunca gostou de guarda chuva. Sempre lhe agradou o molhado que a chuva deixa na curvinha do pescoço. Quando pequena preferia sua capa de joaninhas a segurar aquele apetrecho tão estranho e grandalhão.
E hoje, especialmente, Alice queria sentir a chuva, pra ver se ela levava embora a dor que estava sentindo.

No fundo, Alice sabia que nem um dilúvio nem ninguém poderia lhe arrancar aquela angústia. E tinha medo que acabassem levando embora grudado, por engano, as lembranças que ela não queria ver partir.

Alice sentia-se imensamente sozinha. Mas preferia assim. Não conseguiria dividir seu vazio com ninguém, tampouco queria tentar esquecê-lo. Não agora.

Alice perguntou-se o que iria acontecer. Perguntou-se o que faria. Perguntou-se por que. Por que. Por- que. Porque....

Alice deitou a cabeça nas pernas e ficou assim por alguns instantes, que pareciam uma eternidade. Sentiu um carinho no seu ombro esquerdo e levantou os olhos. Uma borboleta amarela pousava pacificamente nela. Alice não tentou entender o que ela fazia ali, debaixo daquela tempestade. Apenas lhe deu abrigo próximo ao seu ventre para passarem o resto da madrugada juntas, imóveis e em silêncio.