Alice estava sentada na calçada, em frente a sua casa, como era tão habituada a fazer. Chovia muito, mas Alice parecia não perceber. Talvez porque confundia suas lágrimas com aquela água do céu que não parava de cair. Indagou-se se o céu chorava com ela. Mas não conseguia ter certezas nem respostas.
Alice nunca gostou de guarda chuva. Sempre lhe agradou o molhado que a chuva deixa na curvinha do pescoço. Quando pequena preferia sua capa de joaninhas a segurar aquele apetrecho tão estranho e grandalhão. E hoje, especialmente, Alice queria sentir a chuva, pra ver se ela levava embora a dor que estava sentindo.
No fundo, Alice sabia que nem um dilúvio nem ninguém poderia lhe arrancar aquela angústia. E tinha medo que acabassem levando embora grudado, por engano, as lembranças que ela não queria ver partir.
Alice sentia-se imensamente sozinha. Mas preferia assim. Não conseguiria dividir seu vazio com ninguém, tampouco queria tentar esquecê-lo. Não agora.
Alice perguntou-se o que iria acontecer. Perguntou-se o que faria. Perguntou-se por que. Por que. Por- que. Porque....
Alice deitou a cabeça nas pernas e ficou assim por alguns instantes, que pareciam uma eternidade. Sentiu um carinho no seu ombro esquerdo e levantou os olhos. Uma borboleta amarela pousava pacificamente nela. Alice não tentou entender o que ela fazia ali, debaixo daquela tempestade. Apenas lhe deu abrigo próximo ao seu ventre para passarem o resto da madrugada juntas, imóveis e em silêncio.
Sabe assim quando uma coisa te incomoda muito. Mas muito. De um jeito que não adianta você explicar, porque as pessoas podem até entender, mas só quem sabe o quantoooooooooo incomoda é você. Só você. Um saber solitário. Ai eu sei que tem gente que sabe do que tô falando! Pode ser uma gordura localizada que só você vê. Pode ser uma atitude de alguém. Pode ser a voz de um desconhecido. Pode ser uma mania. Enfim... aquilo que parece tão pequeno e insignificante pra terceiros as vezes é um tormento gigantesco pra gente. Aí a raça te chama de exagerada, de dramática, de chata. Tá, como diz uma grande amiga minha... "eu sei que eu sou chata", mas as vezes não é isso. É que a coisa incomoda muiiiiiiiiiiiiiiiiiiitoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo mesmo. E quando a gente não vê saída pra resolver? E quando a gente não tem dinheiro pra resolver? E quando a gente não tem estômago ou paciência pra resolver? E quando não há solução? ai que preguiça.
Tô ensaiando um post aqui há um tempinho... assunto gostoso pra escrever até que eu tinha... a viagem inspiradora pra São Paulo, a volta aos estudos acadêmicos, as empolgações projetísticas, as borboletas na barriga, os sorrisos inesperados.... ..... .....
Mas acabava começando, desistindo, adiando, "empreguiçando".
Aí a Manu (uma coisa querida demais que apareceu na minha estradinha) me mandou um textinho agora daqueles que pra algumas pessoas não diz nada e pra outras diz tudo. Pois pra mim, ele disse tanto!
"Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver..." [Ana C. Jácomo]
Cada frase me fez lembrar alguns seres especiais que moram no meu coração. Me fez sorrir, sentir saudade, brilhar o olho e suspirar. Me fez pensar como eu queria estar perto do Boi, que faz aniversário amanhã, e ao mesmo tempo sorrir porque eu, de alguma forma, estou. Me fez lembrar como a presença de algumas pessoas faz curar a alma. E como cada um tem seu cheiro, sua cor e seu sabor.
E entre cólicas e caos, lágrimas e gargalhadas eu tenho novamente algumas certezas....
"A vida breve era o preço por sua beleza.
Ciente da própria sina, desafiou-a.
Rompeu o segundo casulo que lhe atava, o medo,
e surpreendeu a todos e a si própria
ao expor um par de asas tão forte quanto a eternidade.
Então voou".