quarta-feira, maio 26, 2010

Shitara


Ela me faz relembrar a infância.

Naquela época eu tinha a Chiquitita, a Chica, que sempre ganhava seus rebentos perto de mim. Dava um jeito de se esconder no meu quarto e quando eu acordava.. pááá, a ninhada tava lá. Ela era amiga do Totó. Eles dormiam juntos. Era lindo de ver a amizade deles. Já teve papagaio, o Rico, já teve porquinho da índia, coelho, galinha, pato, mais cachorro, o Pintado. Não, o Pintado veio antes. Mas o que importa a ordem? E o auau Benji, não posso esquecer, que foi a terceira palavra que eu aprendi a falar. Era mama, papa e bebi, o auau. Depois de grande teve mais gato, O Kiko, o Bob, mais cachorro, o Pingo, a Lica... teve peixe, o Felizberto, teve a Dori, a tartaruga.

Hoje eu não tenho mais nenhum bicho. Continuo gostando muito deles, mas é que moro numa casa que não é totalmente minha e além disso, minha rotina não me permite cuidar deles como merecido... e tem as comidas, as vacinas, a rinite, as preocupações, o quem cuida quando eu vou viajar.... Não, não posso ter um de novo, por enquanto.

Mas aí chega ela, que não é minha, mas tá morando lá na casa que também não é totalmente minha. Ela é tipo uma bichana sobrinha de estimação. E vem me trazer sentimentos que fazia um bocado de tempo que eu não vivia. Miado de manhã pra ganhar água (na pia), quer subir na cama, não pode. E olha com aquela cara de tadinha, e ronca, ronca, lambe minha mão, se enrosca na minha perna como só os bons felinos sabem fazer. E eu não resisto. Abro um sorriso e sento no chão, pra mexer no seu pescoço, acariciar sua barriga macia e sentir o seu carinho de bicho, como eu sempre fazia quando era criança.

É, Shitara me traz lembranças boas.

terça-feira, abril 27, 2010

depois.




"Depois de todas as tempestades e naufrágios o que fica de mim em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro".

(Caio Fernando Abreu)




[foto de Alice em "Crisálida", de Ligia Maciel Ferraz]

segunda-feira, abril 19, 2010

Não é importante.

"Não precisa ter medo.... se não der certo, você começa de novo."

Mas o fato é que ela não conseguia não ter medo. Sim, ela tentava com todas as forças. Fechava os olhos e repetia em voz baixa pra si mesma que ia dar tudo certo....
Mas a verdade é que ela tinha mais que medo. Tinha aflição, apavoro. Suava frio, tremia de bater os dentes. Só de pensar na possibilidade de não dar certo. Ou seja, de dar errado. De ser um desastre.
"Vão rir de mim" ela pensava insistentemente antes de dormir. Ela não. A sua cabeça que cismava em não parar de pensar, raciocinar, projetar, divagar. Maldição de mente inqueita e teimosa.
E ela virou de um lado pro outro, minuto após a minuto até de manhãzinha. O lençol saiu da cama, deixando sua pele encostada no colchão, e ela detestava isso. Sentou ereta, apoiou as mãos na cabeça e chegou a uma conclusão.

"Não é importante".

E se não é importante..............

terça-feira, março 30, 2010

turnê.


a doblo fica pequena de tanta tralha. a estrada é ruim, mas o caminho é bonito. há a alegria do reencontro. há a preguiça de outro encontro. nem tudo é perfeito.
a tesoura quebra. o baú desmonta. o boneco cyber quebra a cabeça. a porta do carro quebra. tá tudo se quebrando? o pneu fura. não adianta encher de novo. não era essa rua, era a outra. vai reto. reto pra onde? cadê minha água? faz meu cabelo? tô com dor de barriga, fudeu!!! tem certeza moça que não tem apresentação marcada nessa escola? entrevista as 6 da manhã. que comida é essa? amiga. esse suco tem gosto de jarra. as crianças invadiram o cenário. o ventilador tá fazendo muito barulho, não consigo dormir. escorrega no tapete, machuquei minha coxa. poxa. mensagens, ligações. água de 5 litros é pouco. pode ser torto. não suporto mais. passa um saco de peso pra eu fazer de travesseiro? sorrisos. o bilboquê. o broto. tartaruga. o porta coisas. lixo de mesa. tesoura. boi. papelão. gordinho não chora que eu te dou outra garrafa. a toalha arranha. não quero sair pra jantar. doritos ou cheetos. medo. lixo na lixeira. nota fiscal. cartão clonado. marca de batom e pão mofado no café da manhã. pai? dor. amor. saudade. olhos brilhantes. pedaço de gente no lixo orgânico. semente de jibóia. certezas. desvio. desvio. desvio. velha benzedeira.
trechos de três semanas. tanta coisa. umas previsíveis, outras inacreditáveis.
sempre assim. ainda não acabou. é, não acabou.
uma semana de folga pra colocar as costas no lugar, esvaziar a alma, matar a saudade e fazer tarefas burocráticas.
e depois?
ah depois é depois.
eu quero saber é de agora.



sexta-feira, março 05, 2010

a frase do momento.





"Deixa estar que o que for pra ser vigora"

sexta-feira, janeiro 29, 2010

dentro dela.


Ela chorou por oitenta e dois minutos ininterruptos.


Queria ficar vazia daquela dor tão nova e tão cinza.


Desejou não ser ela.


Queria ser qualquer outra coisa ou pessoa porque, ser ela naquele momento, lhe destroçava o estômago.


Pensou no sorriso que era tão seu, aquele sorriso que era tão instintivo e tão verdadeiro. Sentiu saudades. Onde ele havia se perdido? Talvez só estivesse escondido, com medo de aparecer.


A leveza não estava lá, tampouco a doçura que lhe preenchia há dias atrás. Ela ansiava o silêncio, mas não conseguia calar sua alma.


Ela fechou os olhos e entendeu que palavras podem machucar mais que uma surra.


Sim, ela havia sido espancada ferozmente. E logo apareceriam os hematomas. Porém, ela torcia que eles não virassem cicatrizes.


Deitou a cabeça sobre os joelhos e tentou sentir um pouco de raiva. Mas não conseguia. Dentro dela, no vazio, misturavam-se a dor e o amor. Só.





quarta-feira, novembro 04, 2009

de novo sobre liberdade. sobre liberdade sempre.


Ela é tão livre que um dia será presa.

- Presa por quê?

- Por excesso de liberdade.

- Mas essa liberdade é inocente?

- É. Até mesmo ingênua.

- Então por que a prisão?

- Porque a liberdade ofende.


Clarice Lispector.