
Inicialmente pensou que ainda estava sonhando e resolveu fechar novamente os olhos pra poder terminar de sonhar.
Mas em seguida, assentou a mão na barriga e confirmou o fato surpreendente: ela estava grávida. Com uma barriga incrivelmente esticada, aparentando nove meses de gestação.
Luísa afastou o lençol amarelo que a cobria e, embasbacada, ficou observando seu corpo transformado. Constatou que, inexplicavelmente, uma criança pronta estava ali, no seu ventre.
No entanto, ela não teve tempo de ficar assombrada, de chorar ou de ponderar algumas possíveis explicações sobre o excêntrico ocorrido, porque entrou em trabalho de parto minutos após a descoberta da gravidez.
Alarmada, Luísa se viu sozinha em seu quarto parindo um ser que ela não tinha nem vaga idéia de como se instalara dentro do seu corpo. Sua pele branca antes tão trivial agora se encontrava estirada e repleta de riscos coloridos. Ela pensou em desmaiar, mas desistiu.
Para sua surpresa, não sentia dor alguma. E isso a deixava imensamente confusa, porque Luísa sempre acreditou que as parideiras sentiam uma aflição bem pior que a amargura de um coração partido. Mas ela- em vez de agonia- sentia cócegas, deslumbrantes cócegas no abdômen, nas coxas e nos órgãos internos os quais Luísa mal sabia citar os nomes.
Luísa tentou então respirar de forma semelhante às grávidas que ela sempre via parir nas novelas. Mas não conseguia, pois as cócegas eram tão violentas que ela não arrumava jeito de deter o riso. Então cerrou os olhos e se entregou àquela sensação tão singular, gargalhando intensamente, com cada parte do seu corpo comprido.
De repente o turbilhão parou. Ela sentiu como se estivesse ficando oca e achou melhor abrir os olhos. E foi então que Luísa se deparou com um panapanã de borboletas coloridas saindo de dentro do seu corpo, abandonando seu ventre e voando pelo quarto. Era impossível contá-las ou descrevê-las.
Luísa suspirou. Era a coisa mais extraordinária e delicada que já havia presenciado. Ou melhor, realizado. Ela havia dado a luz à incontáveis borboletas exóticas e agitadas. E estas, como que querendo sentir seu cheiro e receber seu calor, trataram de pousar uma a uma sob seu corpo nu. E então Luísa chorou. Aquele era o carinho mais formidável que podia existir.